quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Depressão

Ninguém dá bola para a depressão

POR GABRIEL ALVES

No post de hoje do Cadê a Cura? trago um texto de uma amiga, Tati Oshiro, que relata suas experiências e impressões sobre a depressão.  Certamente não são poucos os nossos amigos e familiares que sofrem calados com a doença. O relato da Tati, com uma linguagem forte e natural,  pode ajudar quem nunca teve um contato tão próximo com a doença a entender um pouquinho desse mundo do ponto de vista de quem mais sofre –o doente.

 

Trintei na depressão, por Tati Oshiro*

Fui diagnosticada na época em que meus amigos estavam dando grandes passos em suas vidas e seguindo em frente. De certa forma, eu sei que fiquei pra trás. Às vezes eu me sinto meio esquecida, sabe? Na verdade, às vezes, eu mesma me esqueço.

Assim que eu fui diagnosticada, muitos dos meus amigos estavam comprando apartamentos, noivando, casando. Enquanto eu era hospitalizada (as primeiras vezes),eles estavam tendo seus primeiros filhos. Carreiras iam em frente, mais bebês nasciam e eu sofria com as recaídas.

Centenas de milhões de pessoas no mundo enfrentam problemas de saúde mental. Mesmo assim o sentimento é que estamos vivendo esse desafio sozinhos. Isso porque a maioria das pessoas não consegue falar sobre o assunto. Existe um tabu! E isso não é culpa delas. Nem sua. Nem minha.

No Brasil,  o número de suicídios por motivos ligados a depressão cresceu mais de sete vezes nos últimos 16 anos –e ainda pouco se fala abertamente a respeito. É triste dizer, mas acho que, de certa forma, nós –doentes– já estamos acostumados.

Responda: qual das opções é a mais bem-aceita quando você vai ligar para o seu chefe de manhã e avisar que precisa faltar no trabalho?

1) “Chefe, preciso ficar em casa hoje porque não estou bem disposto, estou com dor de cabeça e enjoo. Acho que é virose!

2) “Chefe, não vou para o escritório hoje porque estou me sentindo muito triste, angustiado e não consigo me levantar da cama. Acho que é depressão!

Todos sabemos a resposta. O mundo consegue aceitar e se sensibilizar quando qualquer outra parte do seu corpo adoece, menos o cérebro.

Há um grande preconceito, uma imagem distorcida das pessoas que lutam contra depressão, ansiedade, bipolaridade, ataque de pânico, TOC…

Sendo sincera, para mim não é fácil falar sobre isso. É foda! E parece que é foda para todo mundo. Tanto que ninguém, no fim das contas, está falando nada.

Nós não vemos isso nas mídias sociais, não vemos na TV. Esse assunto não é gostoso, não é divertido, não é leve. E como não lidamos com o tema, não percebemos a severidade da depressão.

E é sério: a cada 30 segundos, em algum lugar do mundo, alguém tira a própria vida por motivos ligados à doença. E pode ser alguém a dois quarteirões de distância, a dois países ou continentes de distância, mas está acontecendo.

As pessoas precisam saber que depressão não é simplesmente estar triste quando algo não anda bem na vida. Quando você termina com seu namorado, quando você perde uma pessoa amada, ou quando não consegue aquele emprego que tanto queria, isso é tristeza –uma emoção natural.

A depressão real é estar triste mesmo quando tudo na sua vida vai bem.

Por muito tempo, eu acho, eu vivi duas vidas completamente diferentes e uma sentia medo da outra. Eu tinha medo de que as pessoas pudessem me ver como eu realmente era. Por baixo da minha risada, havia sofrimento. Eu escondia muita dor.

Algumas pessoas sentem medo de levar um fora, outras tem medo de tubarões, outras ainda tem medo da morte. Para mim, por muito tempo nessa vida, eu tive medo de mim mesma. Eu tive medo da minha vulnerabilidade, das minhas fraquezas. E esse medo me fazia sentir como se eu estivesse encurralada em um canto, sem outra saída a não ser a morte. Eu penso nisso todos os dias.

Enquanto eu escrevo aqui, eu já pensei novamente, porque essa é a doença, esse é o sofrimento, isso é a depressão. Não é como catapora –uma vez vencida, a doença não se vai para sempre, é uma coisa com a qual se vive, como uma vizinha chata que nunca vai mudar de casa, uma voz que você vai sempre ter que escutar.

E a parte mais assustadora é que, depois de um tempo, você se acostuma, as coisas se tornam “normais”. E aquilo de que você mais sente medo não é a dor lá de dentro, é o preconceito das outras pessoas. É a vergonha, o olhar de desaprovação na cara do amigo, o cochicho nos corredores dizendo que você é fraca e os comentários de que você está louco.

E isso é o que impede de procurar ajuda, fazendo com que você guarde essa dor. E aí você guarda e esconde, mesmo sabendo que é justamente isso está mantendo você na cama todos os dias e fazendo você se sentir vazio, não importa o quanto você se esforce.

Vivemos em um mundo onde,  quando alguém quebra um braço, todo mundo corre para assinar no gesso. Mas a pessoa tem depressão, todo mundo foge.

A depressão é um dos maiores problemas de saúde já documentados e é um dos menos discutidos. O assunto fica de lado, afastado –as pessoas esperem que as coisas se consertem sozinhas.

Mas isso não aconteceu e não vai acontecer. Cultivar essa “esperança” não resolve, só procrastina. 

Não sei qual é a solução, mas o primeiro passo é reconhecer que temos um problema –não vai ser possível encontrar  a resposta enquanto temos medo da pergunta.

Essa mudança de postura tem que começar agora –comigo, com você, leitor, e com outras pessoas que estão sofrendo, que estão escondidas nas sombras. Nós precisamos quebrar o silêncio e falar a respeito.

Se você está enfrentando a depressão, saiba que está tudo bem. Saiba que você só está doente, você não é fraco. A depressão é um problema, não uma identidade.

Mas por mais que eu odeie a depressão, eu sou grata a ela. A doença me empurrou para escuridão para me lembrar que há luz. Minha dor me forçou a ter fé em mim mesma, em outras pessoas, e de que eu posso melhorar e mudar essa situação. Sei que podemos falar sobre isso e lutar contra a ignorância, contra a intolerância, e que podemos aprender a amar quem nós somos –e não quem o mundo quer que sejamos.

Precisamos parar com a ignorância, com a intolerância, com o estigma, com o silêncio, e nos livrar dos tabus.

É preciso dar uma boa olhada para essa realidade e começar a falar, porque a melhor forma de combater esse problema, que as pessoas estão enfrentando sozinhas, é nos fortalecermos juntos.

Apesar dos lugares aonde as estradas me levaram, os 30 anos me trouxeram esperança, desejos e sonhos. O passado não precisa definir o futuro, certo? Eu não terminei ainda, eu não parei. E eu não vou desistir.

 * TATI OSHIRO é formada em administração de empresas e atualmente está estudando inglês no Canadá. Ela também se dedica a ajudar pessoas que, assim como ela, enfrentam doenças mentais e emocionais.
tatioshiro@outlook.com


domingo, 6 de novembro de 2016

O amor, e a paciência

Encontrar o amor não é tão difícil, se comparado à árdua tarefa que consiste em mantermos acesa a chama afetiva que nos mantém juntos de quem amamos. Após o encontro amoroso, afinal, existe um longo caminho a ser percorrido, para que os sentimentos se fortaleçam e tornem a jornada conjunta repleta de cumplicidade e admiração mútua.

As pessoas vêm de universos diferentes, passaram por vivências próprias, sobreviveram a tempestades únicas e, de repente, precisam confrontar tudo o que são com alguém de fora, tentando harmonizar perspectivas na maioria das vezes dissonantes e distantes, em favor da necessidade de amarem e serem amadas. A paixão chega, arrebata e nos lança ao encontro de um mundo outro, no qual mergulharemos às cegas, a fim de saciarmos a fome de amor que é tão nossa.

A convivência diária não é fácil, uma vez que o tempo nos mostra e nos desnuda em tudo o que somos, da mesma forma nos trazendo as verdades de quem está ali ao nosso lado, mesmo aquelas que nos incomodam. Infelizmente, poucos estão dispostos a enxergar, fora de si e em si mesmo, o que lhes retira da zona de conforto, o que lhes obriga a refletir sobre o que têm feito da vida. E o companheiro sempre será o espelho que reflete o que estamos ofertando, o tipo de amor que construímos ou desconstruímos diariamente.

E, se não nos permitirmos a entrega na totalidade que o amor requer, acabaremos fatalmente nos furtando de dedicar o mínimo de nós mesmos ao outro, relegando-o ao vazio solitário de nossa presença incompleta. Não abriremos mão de nada, não ouviremos os sussurros sofridos ali ao lado, não olharemos fundo nos olhos que nos buscam em vão, não sentiremos as acelerações do coração que pulsa pertinho, não responderemos aos desejos, não tocaremos a pele, não daremos, enfim, importância a quem sempre esteve conosco.

E ninguém há de suportar o desprezo, a indiferença, a agressividade silenciosa e a companhia vazia de quem lhe prometera amar pelo resto da vida. O amor não aceita desaforo, não sobrevive de passado, tampouco se alimenta de esperanças unilaterais e de correspondência nula. Só amor, somente amar, apenas as lembranças do que já foi mas não é mais, nada disso será capaz de manter duas pessoas juntas. Porque o amor é, sim paciente, mas tem o limite exato da dignidade que nos sobra ao fim do dia. Nada mais do que isso.